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Abordagem Diagnóstica e Manuseio Terapêutico da Doença Coronária Crônica:
Recomendações Oficiais do Consenso da SOCERJ
Disfunção Ventricular Isquêmica Crônica com ou sem Infarto Prévio
1) Introdução:
1-1) São pacientes, onde a disfunção
ventricular (geralmente do ventrículo esquerdo), é a expressão clínica
dominante, podendo haver ou não angina do peito, por razões ainda não
conhecidas.
1-2) A hibernação, o atordoamento
miocárdico repetitivo e a remodelagem ventricular são os mecanismos
fisipatológicos básicos;
1-3) Podem ser identificados, de acordo
com a maneira de apresentação clínica, dois tipos de síndromes:
2) Síndrome de disfunção miocárdica isquêmica crônica:
2-1) Caracterização fisiopatológica:
-
Não existe infarto do miocárdio prévio;
-
A disfunção ventricular esquerda já é, desde o início um processo
difuso, secundário a lesões triarteriais ou do tronco da coronária
esquerda;
-
A hipertrofia excêntrica e os surtos isquêmicos, assintomáticos ou
não, tendem a agravar o processo;
-
Menos frequentemente, a disfunção inicia-se em uma área do
ventrículo esquerdo (relacionada com a artéria obstruída), sendo
suficientemente severa e extensa para gerar um processo de remodelagem
ventricular de natureza isquêmica, levando a uma disfunção contráctil
difusa, com dilatação ventricular generalizada. A hipertrofia excêntrica,
também presente, tende a agravar o processo.
2-2) Diagnóstico:
-
Caracterização da etiologia isquêmica: presença de fatores de risco
coronário e ausência de outra causa aparente para explicar a síndrome de
miocardiopatia dilatada;
-
Presença de quadro sindrômico de miocardiopatia dilatada, com sinais
clínicos de congestão venosa pulmonar (eventualmente sistêmica), sinais
de dilatação das cameras cardíacas (predominantemente esquerdas),
terceira e quarta bulhas, que em geral apresenta-se sob a forma crônica,
com eventuais períodos de agudização;
-
Alterações segmentares (acinesia/discimesia/hipocinesia severa) ao
ecocardiograma, acompanhados de dilatação generalizada com baixos níveis
de fração de ejeção;
-
A presença eventual de angina do peito ou de alterações do segmento
S-T e da onda T sugestivas de isquemia miocárdica pode ser de grande
valia.
2-3) Identificação da viabilidade
miocárdica: este achado é fundamental para uma possível indicação de
angioplastia coronária ou cirurgia de revascularização, únicas medidas
capazes de melhorar o prognóstico destes pacientes.
Apontam fortemente para a presença de viabilidade:
-
Presença de angina do peito ou equivalente anginoso acompanhados ou
não de alterações eletrocardiográficas "isquêmicas";
-
Presença de disfunção segmentar ao ecocardiograma basal;
-
Resposta dita "bifásica" ao ecocardiograma com dobutamina, ou seja,
melhora da contração das zonas miocárdicas comprometidas, em doses de
até 20 microgramos, com posterior piora das mesmas, em doses de 30 a 40
microgramos;
-
Cintilografia miocárdica demonstrando aumento da captação de talho (preferencialmente)
ou MIBI, no segundo momento de leitura comparado ao basal, dos
protocolos apropriados de viabilidade descritos no documento original do
consenso;
-
Presença de alterações segmentares da contração ventricular esquerda
(discinesia, acinesia, hipocinesia), que melhoram no batimento
potenciado pós-extrassistólico, observadas durante a ventriculografia
esquerda do cateterismo cardíaco.
2-4) Abordagem terapêutica:
-
Correção da dislipidemia: a redução importante dos níveis de LDL
colesterol pode, conforme demonstrado nos estudos de prevenção
secundária em pacientes com disfunção ventricular (SOLVD), atuar
favoravelmente, de maneira independente, melhorando a contratilidade do
ventrículo esquerdo através da correção da disfunção endoterial e da
consequente melhora da perfusão miocárdica;
-
Tratamento farmacológico da disfunção ventricular: atuam
favoravelmente, como em qualquer tipo de disfunção, os inibidores da ECA,
os nitratos, os diuréticos e os digitálicos. Os betabloqueadores,
principalmente os de nova geração, como o carvedilol, podem ser usados
em função do substrato isquêmico da doença. No entanto, devem ser
manuseados com cuidado (doses baixas e crescentes), pelo risco de
agravar a disfunção, pelo menos na fase inicial do tratamento;
-
Revascularização miocárdica: neste grupo de pacientes, a cirurgia é
mais frequentemente utilizada, já que a maioria dos pacientes é
portadora de lesões multiarteriais ou de tronco de coronária esquerda.
Eventualmente, angioplastia coronária pode ser um método de escolha,
seja por contra indicação própria do paciente ao ato cirúrgico,
impossibilidade técnica, ou lesão predominantemente uni ou biarterial.
3) Síndrome de disfunção ventricular pós-infarto:
3-1) Caracterização fisiopatológica:
-
Quadro clássico de remodelagem ventricular com dilatação
inicialmente na zona do infarto (expansão), seguida de disfunção
contráctil, nas zonas não infartadas peri-infarto e remota, com
dilatação ventricular generalizada;
-
Este quadro pode se iniciar nas primeiras horas pós-infarto,
dependendo da magnitude do mesmo;
-
Para que haja remodelagem é necessário o acometimento, pelo infarto,
de pelo menos 20% da massa ventricular;
-
A hipertrofia excêntrica também acompanha o processo de dilatação
ventricular.
3-2) Diagnóstico: tem dois objetivos:
(3-2-1) Documentar o infarto prévio e
caracterizar a remodelagem:
-
Passado de infarto do miocárdio de moderada a grande extensão,
localizado mais frequentemente na parede anterior;
-
Presença de disfunsão miocárdica de grau moderado ou severo, com
expressão apenas hemodinâmica (baixa fração de ejeção e aumento dos
volumes ventriculares) ou clínica (congestão pulmonar e diminuição da
perfusão sistêmica), que podem estar presentes, desde a fase aguda da
doença ou se insinuarem lentamente através dos meses ou anos
subsequentes
(3-2-2) Identificação da presença de
isquemia e viabilidade miocárdica residuais, causadas por obstrução crítica
no próprio vaso responsável pelo infarto ou em outras artérias. São
elementos importantes para a confirmação desta suspeita:
-
Presença de angina do peito e/ou alterações isquêmicas da
repolarização ventricular dentro ou fora da área do infarto;
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Isquemia detectada ao teste ergométrico, ou à cintilografia
miocárdica ou ao ecocardiograma de estresse;
-
Sinais de viabilidade miocárdica detectados através de protocolos
apropriados de cintilografia miocárdica e de ecocardiograma com
dobutamina, descritos no documento original do consenso. Este dado é de
fundamental importância, já que a isquemia, e não a viabilidade, pode
estar oculta pelo próprio processo metabólico da hibernação miocárdica,
comum nestes casos, deixando de identificar um grande número de
pacientes com potencial de reversibilidade da disfunção através da
revascularização miocárdica.
3-3) Tratamento: tem dois objetivos:
(3-3-1) Atenuação da remodelagem através
de medicamentos: É usada como medida isolada nos pacientes com remodelagem
ventricular pura, sem sinais de isquemia e viabilidade miocárdica. Os
inibidores da ECA são as drogas mais eficazes, conforme demonstrado em
inúmeros estudos, que mostraram não somente efeitos favoráveis na
ultraestrutura miocárdica, como redução inequívoca da mortalidade. Os
nitratos são também drogas capazes de atenuar, em menor grau, o processo de
remodelagem, podendo ser usadas quando os inibidores da ECA forem contra
indicados ou mesmo como terapêutica adicional, já que existem também estudos
isolados evidenciando redução de mortalidade com estes fármacos.
(3-3-2) Revascularização miocárdica:
está indicada sempre que houver a presença de viabilidade miocárdica de
natureza isquêmica na parede afetada pelo infarto ou em zonas remotas. A
escolha do tipo de revascularização deve basear-se nos mesmos preceitos já
esboçados nos outros capítulos. |