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I Consenso Sobre Manuseio Terapêutico da Insuficiência Cardíaca - SOCERJ

5. Digital

Usado há mais de 200 anos na insuficiência cardíaca os digitálicos passaram a ter seu uso polêmico após a introdução dos inibidores de enzima coversora de angiotensina.

Se de um lado é unânime a opinião de ser vantajoso seu uso na fibrilação atrial com frequência ventricular rápida passou-se a questionar sua real vantagem nos pacientes com disfunção sistólica em ritmo sinusal.

Tal controvérsia se devia em grande parte à inexistência de estudos que comprovassem a real utilidade do seu uso quer na melhora de qualidade de vida, da capacidade de exercício bem como e principalmente no aumento de sobrevida dos pacientes.

Alguns estudos vieram a comprovar sua utilidade em pacientes da Classe III e IV do NYHA em ritmo sinusal ao demonstrar a melhora da fração de ejeção (1) e da capacidade do exercício (2) no grupo com digital em relação ao grupo placebo.

De outro lado a retirada da digoxina em pacientes com ou sem os inibidores de enzima conversora de angiotensina (3,4) mostrou efeito deletério no grupo placebo.

O digital aumenta a contratilidade miocárdica ao atuar inibindo a enzima sódio-potássio ATPase da membrana aumentando o teor de sódio intracelular e o de potássio extracelular o que favorece a troca de sódio-cálcio aumentando o teor de cálcio intracelular.

Há no entanto também demonstrações de que o digital exerce importante papel na regulação neuro-humoral aumentando a atividade vagal, e a sensibilidade dos reflexos baro receptores.

Em pacientes com quadros graves de insuficiência cardíaca (Fr ejeção média de 21%) baixas doses de digital mesmo sem efeito hemodinâmico significativo reduziu a norepinefrina plasmática (5).

Em um estudo (6), ao se comparar o efeito de doses baixas e mais altas de digoxina em pacientes com insuficiência cardíaca leve a moderada não se observou modificação da frequência cardíaca, na variabilidade da frequência, ou do nível da norepinefrina plasmática nos 02 grupos .

Em pacientes classe III e IV da NYHA (7) verificou-se efeitos agudos na redução da angiotensina II bem como a elevação do peptídio natruretico atrial e do monofosfato cíclico da guanosina após a droga.

Existe uma dissociação entre os dados hemodinâmicos e os efeitos neuro humorais da digoxina; baixas doses de digoxina mesmo sem apresentar efeitos hemodinâmicos podem melhorar o perfil neuro-humoral enquanto doses maiores melhoram o quadro hemodinâmico sem acrescentar melhora no perfil neuro-humoral.

A ação vagal da digoxina se faz sentir mesmo em pacientes sem quadro de descompensação cardíaca enquanto a ação do Captopril só se faz sentir em pacientes descompensados provavelmente por inibição da ação neuro-humoral enquanto a digoxina parece ter ação direta.

No estudo DIG englobando 7788 pacientes dos quais 6800 tinham fração de ejeção < 45% com o uso de digital ou placebo não houve modificação significativa da mortalidade nos dois grupos embora o número de internações e o de pacientes com quadro de agravamento da disfunção miocárdica tenha sido menor nos pacientes que usaram digoxina (9).

A pequena margem da faixa terapêutica da tóxica faz com que se faça necessário a monitorização da mesma até que se estabeleça a dose adequada a cada paciente; a dose habitual de digoxina diária varia de 0.125 à 0.25 devendo-se manter o nível de digoxina plasmática entre 0.9 e 1.2mg/ml (10); atenção especial deve ser dada quando o paciente é idoso, tem insuficiência renal, DPOC com hipoxemia, hipopotassemia, hipomagnesemia, hipercalcemia ou com o uso concomitante de drogas que interagem na sua ação como a quinidina, amiodarona e verapamil (11). A infusão endovenosa com Cedilanide, deve ser feita em uma diluição de 50ml de Solução Fisiológica, e ser administrado no tempo não inferior a 30 minutos, para se evitar vasoconstrição arterial pulmonar e sistêmica.

A quais pacientes deve ser prescrita Digoxina?

Indicações aceitas:
a. É consensual a indicação da Digoxina aos pacientes que apresentem fibrilação atrial com frequência ventricular elevada com ou sem quadro de descompensação.
b. Nas disfunções sistólicas sintomáticas – classes II, III e IV da NYHA também é consensual a prescrição de Digoxina.

Indicações controversas:
c.
Nos pacientes com disfunção sistólica assintomáticos – classe I da NYHA a maioria dos autores não recomenda o uso de Digoxina. No entanto sabendo-se hoje do seu efeito regulador neuro-humoral não seria recomendável seu uso em pacientes com grau de disfunção mais severa como nos pacientes com fração de ejeção igualou inferior a 35% com intuito de proteger contra a progressão da disfunção?
d. Evitar o uso nas Cardiomiopatia isquemicas com isquemia em atividade.

Contra-indicações:
a. Cardiomiopatia Hipertrofica.
b. Estenose Aortica moderada ou Grave sem disfunção ventricular.
c. Disfunção diastolica isolada.
d. Cor Pulmonale.

REFERÊNCIAS:

  1. "The Captopril – Digoxin Multicenter Research Group".JAMA 1998; 259:539-44

  2. Di Bianco R, Shabetai R, Kostuk W, et al:"A comparision of oral milrinone, digoxin and their combination in the treatment of patients with chronic heart failure" N. Engl. J. Med. 1989; 320:677-83

  3. Packer M., Gheorghiade M., Young J.B et al: "Withdrawal of digoxin from patients with chronic heart failure treated with angiotensin –converting enzyme inhibitors" – Radiance Study N. Engl. J. Med. 1983; 329:1-7

  4. Uretsky B-F, young J.B., Shahidi F.E. et al: "Randomized study assesing the effect of digoxin withdrawal in patients with mild to moderate chronic congestive heart failure – results of the Proved trial" J. Am. Coll. Cardiol. 1993; 22:955-62

  5. Newton G.E., Tong G.G., Schonfield A D. et al: "Digoxin reduces cardiac sympathetic activity in severe congestive heart failure" J. Am. Coll. Cardiol. 1996; 28:155-61

  6. Slatton M.L., Irani W., Hall S. et al: "Doses digoxin provide additional hemodynamic benefit at higher doses in mild to moderate heart failure" Circulation – Abstract 1996; 94: I-623

  7. Tsumatomo T., Hisinaga T., Maeda K. et al: "Acute effects of digitalis on plasma atrial natriuretic peptide and cyclic guanosine monophosphate levels in patients with congestive heart failure" Circulation – Abstract 1995 - I-209

  8. "Up date on digoxin and other positive inotropic agents for chronic heart failure" Reddy S., Benatar D. and Gheorghiade M. Current opinion in cardiology 1997; 12:233-41

  9. "The digitalis investigation group" N. Engl. J. Med. 1997; 336:525-33

  10. Value of Digoxin in heart failure and Sinus Rhytm new features of and old drug? van Vel d huisen D.J., Graeff P.A, Remme W.J. et al. J. Am. Coll. Cardiol 1996; 28: 813-819

  11. "Consenso Brasileiro para o tratamento da insuficiência cardíaca" Arq. Bras. Cardiol. 1992; 59: Supl I-I-2-20

  12. Guidelines for the evaluation and management of heart failure. J. Am. Coll. Cardiol. 1995; 26:1376-98.

  13. Lazzoli JK. A atividade física no tratamento da insuficiência cardíaca crônica. Rev. SOCERJ. 1997; 10:200-210






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